“You look so Portuguese right now.”

Este post vem a propósito da compra de um Compal de manga. Sim, acho que foi desta que perdi a cabeça de vez.

Eu ainda não estou totalmente maluco, por isso explico – comprei um Compal de manga no Stockmann, em Tallinn, a 4 mil quilómetros de Portugal. Ainda estava dentro de um caixote quando o retirei, caixote que dizia PORTUGAL em letras garrafais. E esta?

O mais curioso é que me pôs a pensar que se não fosse português não o teria comprado. Nem sequer era o sabor que eu queria, que diabo. Mas o logo conhecido e o rótulo totalmente em português deram-me um estúpido conforto e uma sensação familiar. Hmm, estranho.

E depois a minha mente deambulou para outro assunto. Porque é que eu fiz isso? Porque é que comprei o sumo que não queria, só porque era de Portugal? Não é como se fosse um produto tradicional, não era vinho do Porto, não era bacalhau (e a Noruega aqui tão perto). E será que eu valorizo mesmo o que vem do meu país, será que eu dou a mínima? Porque até há pouco achava que não.

Isto vem a propósito de outro assunto que me tem mexido na cabeça ultimamente. Estereótipos nacionais; patriotismo; sentimento de pertença; amor à terra-natal, à língua. Se calhar vocês acham que sim, que faz sentido. Outros dizem epá, hoje em dia, eu quero é ser globe-trotter, gosto mais das cabines vermelhas de Londres que dos táxis pretos e verdes de Lisboa. Eu quero é andar, isso do patriotismo já era. EU SOU UM CIDADÃO DO MUNDO, ouvi dizer aqui há uns tempos.

E se calhar na altura o argumento colava. Agora… não sei. Dou por mim a dizer aos meus amigos de diferentes nacionalidades “os portugueses fazem isto, são assim, comem aquel’outro”. E eles fazem o mesmo em relação ao seu estereótipo nacional. As diferenças notam-se. Encontram-se situações e hábitos engraçados, às vezes estranhos. Por isso, sim, pensava, as nacionalidades existem e fazem sentido e sou português e blábláblá.

Até que olhei por outra perspectiva. Que nacionalidade têm os meus amigos cá? Aqueles que são verdadeiramente amigos, os que têm coisas em comum, outras nem tanto, mas com os quais acima de tudo me identifico? Portugueses?

É engraçado, mas não são. E não é como se não os houvessem – já conheci praí uns 15 portugueses em Tallinn, e não seria difícil fazer amizade com estes e não com outros. Mas não, não foi com eles que criei amizade. Foi com os alemães, os tais que são frios e calculistas, com (alguns) franceses, os tais que são arrogantes, os holandeses, ultra-liberais, os estonianos, frios e cínicos. E podia continuar por aí adiante.

Ora vejamos: os amigos alemães são tudo menos frios e calculistas, os franceses interessantes e humildes, os holandeses surpreendentemente ‘normais’, os estonianos calorosos e divertidos. MAS! aqueles que estão no meu grupo de amigos, note-se. Vivi à beira de franceses que fariam o Ghandi arregaçar as mangas e partir umas bocas. Conheci alemães que eram do mais aborrecido. E os estonianos, deus meu, que faltinha de joie de vivre.

O que concluo? Não faço ideia. Acho que sou português. Não acho, sou e pronto. Gosto de falar bem do meu país, e às vezes casco nele sem piedade. Não encaixo no estereótipo de português dizem-me. E 5 minutos depois, dizem-me ‘isso foi tão tipicamente português’.

Que mundo confuso. Acho que no fundo, nacionalismo pode ser um conjunto de características do nosso país que nos agradam. Uma parcela do que conhecemos, e que é quentinho, às vezes. Mas identidade não é só isso, e a música que ouvimos, as piadas das quais rimos, o chapéu que usamos não depende só disso – e é aí que surge a personalidade, que curiosamente é transnacional e que nos faz relacionar e fazer amigos que cresceram diferentemente.

Sim, isto a propósito de um Compal que nem era assim tão bom. Será que o texto acima fez algum sentido?

Acho que não, mas se alguém aí tiver tudo na cabeça arrumadinho nas prateleiras certas que me diga, porque a minha parece o meu quarto – o pesadelo de uma mulher-a-dias.

“Homecoming”

Escrevo estas linhas directamente do Lidosta Riga, aeroporto da capital letã. São 5 e meia da matina, e está o dia vai que não vai a nascer. Como companhia, um saco demasiado grande e uma mochila cheia de Kalev’s.

Engraçado como passo meses em Tallinn e poucas vezes os comi, e no entanto levo uns quilos deles para casa, para quem nunca há-de pôr um pé na Estónia.

Estas viagens são assassinas. Horas e horas sentado em bancos de aeroporto, impossibilitado de sequer andar de um lado para o outro por causa do bandido do saco, esperas que duram bem mais que os voos que as precedem. Tudo por causa de voos que acabam por ser mais baratos – mesmo? Depois de tanta taxa, acabo por nem saber se isso é realmente verdade. Mas enfim – olha, um grupo de empresários portugueses. Se tivesse força e vontade para socializar ainda falava com eles.

À frente uma semana no país de origem. Saudades sim, vontade de ver a família, de ver os amigos, de ver um Sol que até funcione, que não viva interminavelmente em hipotermia. A ver se a chuva deixa. Ao mesmo tempo, pena de sair de um ambiente em que fiz mais amigos por metro quadrado que em qualquer outro lado.

É engraçado, realmente, isto do Erasmus. Faz-nos questionar realmente aquilo que fazemos normalmente, as rotinas a que nos habituamos e a razão porque não mandamos tudo pró galheiro e arriscamos mais vezes, porque é tão fácil quanto isso.

Não, a sério, é que é mesmo. Criar uma falsa ilusão de segurança dada por estas rotinas é fácil, mas este tipo de experiência ensina-nos que é uma bela treta. Não viajar, não conhecer mais gente, mais sítios, não viver de forma mais enriquecedora, no fundo parece criminoso. E pensar que antes quando ouvia estudantes Erasmus falar da “maior experiência da minha vida” só me apetecia chamar-lhes palermas pomposos, quando o palerma era eu.

Volto numa semana para Tallinn. Bom ou mau? Digamos que a cidade em si já atingiu o período de validade. Mas isso pouco importa. Não é só onde estás, mas o que fazes e com quem o fazes. E as roadtrips, os copos, os listening tests, os quizes, a carbonara do Vapiano, as viagens do Domingo (mais ou menos alegre consoante o nível de alcoolemia) dão fôlego à capital estoniana que ela, cansada e enregelada, já não tem.

A realidade é que aquilo a que chamo casa também é apenas um local confortável. Olhando para trás, iam meses desde que tinha tido um desafio que valesse a pena. Agora, com um mestrado a acabar – e um período de estudos de 17 anos com ele – o futuro é incerto. Há que trabalhar. Onde, não sei, mas sei uma coisa – não quero o mesmo que quereria há 5 meses, e isso é bom. Porque me parece que cresci imensamente durante este bocado, nem que para isso tenha sido preciso tornar-me num adulto boémio alcoólico – mais maduro que o jovem entediado de antes.

Venha daí o futuro.

ora:

- merda prá neve derretida. não, não é só água, é lama.
- uns bons socos fazem os seus danos, mas teria piada descobrir que tinha sido uma rapariga, em vez de um russo.
- as hesitações são a pior merda.
- “i’m not ok, but i’m working on it”
- viciado na cover do “Rocket Man” dos my morning jacket, apesar de não conhecer mais músicas deles e não ter particular vontade em o fazer;
- sinto falta da minha guitarra
- merda prós franceses mais o barulho que fazem
- português é uma linguagem do caraças, e é preciso não falar por muito tempo para o perceber
- acho que falhei totalmente a área em que vou trabalhar o resto da minha vida.
- falar com alguém por IM’s dá origem a mais confusão que as vantagens que traz.
- um sol que funcione a sério é que era.
- até a porra do livro que andava a ler tive de perder
- odeio fazer limpezas. odeio, odeio, odeio.
- sinto falta de conduzir, acho que quando o puder fazer de novo vou guiar umas horas seguidas, sem destino.
- já disse que sinto falta da guitarra? ok.
- o que é que se faz quando não se sabe o que fazer? atira-se de cabeça?
- se tivesse uma chave de parafusos abria tudo no meu raio de visão. sei lá porquê.

“Ey, stockholmes!”

Okay, a pedido de várias famílias vou fazer um novo post sobre as aventuras e desventuras em Estimaa. O que há pra dizer?

- Descriçao dos estonianos: tímidos, frios e demasiado objectivos. Isto vindo de um português que se achava tímido, frio e objectivo… por isso já vêem como é.
- Tanta festa e tanta cerveja vai-me tirar anos de vida. É à média de 3 litros por noite… praí 5 noites por semana. Nao digam à minha mae, sff.
- fui fazer escalada, e mesmo nao sendo o melhor do mundo (ai estes braços de princesa), adorei. bem melhor que a patinagem… seria da companhia? provavel :)
- hoje zarpo pra estocolmo, até 3a de manha. mesmo n tendo câmara, a ver se arranjo umas fotos para postar ca eventualmente…

E pra ja fico-me p aqui, q estou num cafe no centro de tallinn a escrever no ipod, a 1 hora da partida do ferry. Uma mochila cheia de heineken, e a bateria do bicho a esvaziar-se. Falamos melhor mais tarde!

“Unistaja…”

Se o céu existe, veio à terra na forma desta música.

(Ah, e o inferno na forma do Pedro Proença).

“Wild horses…”

Como vai a vida?

“Balance.”

Lembram-se da tal ida à pista de gelo?

Sim, eu sou o da esquerda. Agarrado à rede, como sempre. E oficialmente o pior iceskater de todos os tempos.

“Get my learn on.”

Para não dizerem que é só borga…

Tou a começar a gostar da linguagem e já começo a saber o que faço quando digo uma frase ou outra. Por isso, até nas aulas me divirto. Nunca pensei dizer isto, pelo menos ultimamente.

Ah, e ao que parece vou andar de patins no gelo. Ass-pillow, anyone?

“The knight who says ‘brrrrr’”

E a neve já se foi, agora está aí a chuvinha miudinha e um frio irritante, conjugados com um vento forte que fazem uma viagem até casa parecer um suplício.

Mas, antes disso, ainda houve a oportunidade de dar um salto a Rakvere e ter um dia em cheio. Especialmente a parte da manhã, com a visita ao castelo, que foi tudo menos uma daquelas visitas guiadas chatas, cheias de factos cientificamente correctos mas que ninguém nunca em tempo algum teve vontade de memorizar. Não, foi uma espécie de playground para adultos, com um guia vestido a preceito (bem como todos nós), com imensa piada e sem cair no ridículo. Fez-se pólvora negra, experimentou-se o carrossel medieval e utilizaram-se lanças. E eu até tentei a sorte como nobre lutador. Hmmm, com Nike’s nos pés. Certo.

Belo dia, sem dúvida, seguido de outra bela noite de copos e de um “truth or dare” de ir às lágrimas. A sério, têm sido dos melhores dias da vida deste desgraçado.

Ah! E querem saber a melhor? Vamos ter treino com armas de fogo – aprender a disparar, basicamente. Na mesma academia onde temos o curso de línguas treinam bombeiros, seguranças, polícias… e é com estes senhores que vamos aprender a manejar umas pistolinhas.

Nem aguento a espera :D

“Come on and let it snow!”

Está a nevar. Está a nevar, caraças!

nevarFui jantar, e vinha pelo caminho pra casa a rir-me que nem um puto. Não sei, pá, parecia um filme.

Nem as sapatilhas se queixaram. E agora a ver a neve do quentinho do quarto… Ahhh. Alguém tem um cappuccino?

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